Maria Poesia

Psicanálise e a Poesia na Vida Cotidiana.

A gente inventa a vida para caber dentro dela.

Textos



Uma boa história no cinema se mede pelos sinais que o nosso corpo emite:
Quando nos esquecemos do tempo, da fome, do frio e da sede... então a narrativa nos capturou.
 
Assim é o filme O Fantasma da Ópera.
Assista-o desarmado.
Entregue-se a música e cante junto com os personagens, pois não é só um filme.
É uma obra de arte que inspira paixão e sedução.
Os personagens contam a história cantando ópera.
Lindo demais.

Para a psicanálise a música escuta de nós um incógnito inaudito e incubado de há muito tempo atrás, desde quando as pessoas falavam ao redor do nosso berço e nossa mamãe nos acalentava cantando para adormecermos.
Tudo aquilo eram sons inaudíveis ainda, não havíamos mergulhado no universo da linguagem, mas isso não significa que não ficou autenticado em nós.
Os gritos, a entonação, as variações da intensidade da voz, tudo fica registrado no nosso arquivo mnêmico.
 
Por isso a ópera com os sons ora indo às alturas; ora para o solo, revira nossas pulsões mais primitivas.
Christine com seu canto agudo nos provoca, arrepia e instiga nossos desejos.
Os gritos sublimados na música entremeados com o silêncio, dizem da sua dor: a dor do desamparo.
Dizem também da nossa dor, já que o desamparo é intrínseco à existência humana.
Todos nós nascemos desamparados.
É uma condição existencial do homem.
O que acontece é que desde muito cedo na vida vamos construindo contornos com as possibilidades que a vida nos oferece.
 
Quando bebês na barriga de nossa mamãe não precisávamos fazer força para comer; diferentemente de outros animais que quando nascem podem sair correndo atrás das *tetas* das suas mamães, o bicho humano não, depois do nascimento se não quisermos passar fome, teremos que sugar o seio ou a mamadeira, dependendo de *um outro* que nos dê o alimento (nesse momento é que começa nossa redenção e nosso drama).
 
Esse desamparo primevo se inscreve no nosso psiquismo e vai sendo atualizado diante das tantas contingências de desamparo, com as quais necessariamente e inevitavelmente vamos nos confrontar no decorrer da nossa existência.
 
Mudam os nomes apenas; é o amor que se perdeu, o filho que saiu de casa, o marido (ou a mulher) que nos traiu; as pessoas que amamos e que se vão embora para sempre e por aí afora.

A vontade de deitar numa cama e se dobrar na posição fetal se contorcendo com a dor psíquica de se sentir só e abandonado vai ser a mesma.
Cada um atualiza sua dor de acordo com o seu estilo, seu jeitinho de ser.
Uns choram, outros disfarçam a dor sentindo raiva de tudo e de todos, como se o mundo fosse o culpado do seu sofrimento e outros aceitam - sofrem também- mas compreendem que o real da vida está para além da existência e que a vida é como ela é e não como gostaríamos que ela fosse.
 
Christine perdeu o pai quando ainda era uma menina.
O pai prometeu a ela que quando morresse mandaria *o anjo da música*.
Esse é o recorte mais importante desse filme.
 
Preste atenção!
 
As palavras de quem amamos têm força.
São essas palavras que formam os axiomas que vão nos acompanhar para sempre na vida.
A psicanálise nomeia esses significantes que têm valor de verdade de fantasmas.
Nosso corpo é um mapa, um pergaminho inscrito e escrito com o sangue da letra do *significante* do outro.
Por isto Lacan diz que o corpo fantasmático é a matriz do inconsciente, porque corpo e imagem, isto é, corpo e fantasma são indissociáveis
 
Para Christine o fantasma Erik foi importante para que ela se tornasse a cantora lírica, que o pai enquanto vivo sonhara.

Com Erik, Christine viveu estranhas e arrebatadoras emoções não só nos subterrâneos do teatro, mas nos seus próprios porões psíquicos.


Quando ele cantava para ela:
-“Feche os olhos e se entregue aos seus mais obscuros sonhos. (...) Deixe que sua mente a leve onde queira estar... (...) Toque-me, sinta-me”; Christine gozava num mundo criado de acordo com os seus desejos.
 
Assim é o que acontece, quando por alguma razão a vida nos mostra suas impossibilidades; nos recolhemos no imaginário, onde tudo é possível de acordo com os nossos sonhos e a substância gozosa do nosso corpo autentica sua marca do gozo nos nossos fantasmas, que se tornam um amparo em nossa vida, o nosso eu vai se esgueirando nos entremeios e desdobras das nossas narrativas, sustentando o nosso desejo e nos capacitando a lidar e manejar com a (nossa) realidade.
 
Só que na dimensão da realidade não cabem só o imaginário e o simbólico.
E Christine trava uma luta difícil para deixar de viver no princípio do prazer e adentrar no princípio da realidade.
O real do amor de Raoul pede seu corpo, sua sexualidade.
Raoul representa a realidade possível de ser vivida para Christine.
 
E a coragem dela faz ato, ela vai ao cemitério e diz ao pai:

 
“- Por que o passado não pode simplesmente morrer?”
 
Nesse momento Christine rompe com o fantasma que carregava dentro de si.
E sua vida pode caminhar ao lado de Raoul.
 
O filme começa e termina com Raoul envelhecido e fragilizado numa cadeira de rodas.
Na cena final ele deixa no túmulo de Christine uma caixinha de música.
Era o fundo musical que orquestrava suas conversas com o fantasma Erik no teatro.
Numa atitude derradeira de respeito e amor pela mulher que amava, 
Raoul compreendera afinal, o quanto o fantasma do anjo da música tinha sido importante para Christine.
 
Assim é para todos nós também, pois
                                                         atravessar e conhecer nossos fantasmas quem sabe seja o trabalho de toda a nossa existência...
                                                       ...e aprendermos a dançar com o Fantasma da nossa ópera é a música que vai orquestrar o baile de nossa vida!
 

 
Neusa Maria 
22.11.2015
 
*Essa resenha tem como base epistemológica a Psicanálise Lacaniana.
 
 
Outras resenhas nos links abaixo: 
 

A pele que habito –Resenha psicológica do filme. 
 

Canção para viver mais –Resenha da música do Pato Fu
 
O segredo de Brockebach Mountain-filme sobre homossexualidade-Resenha Psicológica
 

 
 
 


 
Neusa Maria
Enviado por Neusa Maria em 22/11/2015
Alterado em 30/01/2016

Música: O FANTASMA DA ÓPERA - The Phantom of The Opera

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