Maria Poesia

Psicanálise e a Poesia na Vida Cotidiana.

A gente inventa a vida para caber dentro dela.

Textos

Dentro de ti ver o mar.


 Quando um homem fala para uma mulher:
 
— (...) entrar em ti e dentro de ti ver o mar,
 
·... ele não  está sendo apenas poético.
 
Neste momento sua voz faz eco no corpo da amada, como se seus dedos dedilhassem a mais linda música já ouvida na vida: A sonata materna.
Aquela que instaura o som...o tom...e as notas do desejo em nós-humanos.
É  enquanto insígnia do desejo de outro desejo - que nós nos constituímos humanos.
Nosso corpo está inscrito, bordejado e tatuado com os versos de amor num espaço-tempo quando a linguagem era apenas palavra-corpo-e não se traduzia em signo linguístico.
É nossa memória mnêmica que se atualiza no discurso do outro, é um entrecruzamento do passado transpassado pelo presente.
Foucault diz que o discurso opera. E como opera. Que o diga Drummond:
 
 “Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra
E te pergunta, sem interesse pela resposta,
Pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

 
Quantas moradas, quantas paradas fazem as palavras antes que engendrem um sentido em nós?
A complexidade se instaura, porque entre o sujeito e o outro há sempre um abismo, pois entre o que se espera e o que ele de fato recebe - há uma falta, e - é- aí – neste hiato - que nascem as castrações. Nem tudo podemos. Nem tudo nos é possível. Aliás, a maior parte dos nossos sonhos são irrealizáveis.
 
 “Dentro de Ti Ver o Mar” é o nome do livro mais recente da escritora portuguesa que eu amo: “Inês Pedrosa.”
As imagens-devaneios, que as histórias que o texto provoca extasiam: corpo e alma. Ondas de ternura, desejo, paixão e raiva invadem o mar dos (nossos) sentimentos-mesmo os naufragados pelo destino e pelo tempo.
 
Por isto elaborei esta resenha, para sugerir que você o leia. Vale a pena!
Leia o livro - e se quiser aprender a sublimar seus sentimentos, sinta suas pulsões e seus desejos orvalhados nas nuvens de maresia molhando seus sonhos mais secretos.
Sabe aqueles amores que a gente nem ousa nomear?
 
Podemos aprender com Rosa, uma das personagens do livro, que canta para se deixar doer, pois o difícil de suportar da falta, preste atenção nos movimentos dela- não é por ela (a falta) ser o que nos move,e sim porque nos dói.
Dói pra você? Pra mim dói muito. Sempre dói.
Lacan diz que é o desejo a metonímia da falta. É o desejo que nos lateja por dentro, que precisamos nomear, porque as coisas preste atenção- são os nomes que lhe damos.
 
 “Existe um momento em que o amor deixa de ser uma narrativa e se imobiliza... (...) a água do amor foge e volta pesada, carregada de restos. Sem o amor que continuava a boiar naquela frase, Rosa não seria capaz de fazer tudo o que fazia, mesmo que nunca mais tornasse a ver o homem que o atiçara. Toda a sua ação era o sinal de que os dois estavam ainda no lugar desenhado pela frase, que aquele amor estava vivo.”
 
E Rosa se transmutou com uma voragem e uma coragem desassombrada. Fez do amor e do desejo que sentia por Gabriel um fado que se chamou:
 “Dentro de Ti Ver o Mar.”
 
 “Quando cantava, Rosa sentia que a voz se separava de si e subia os degraus de uma escada de luz. Era ela quem cantava o fado ou o fado que a cantava? Cantando, deixava de ser rouca e de tropeçar nas palavras. O seu sofrimento tornava-se alto como a noite e tão perfeito que encontrava assim uma forma de consolação”.
 
Continuemos...
Veja só:
Por mais que soframos, somos seres dialógicos. Temos lógicas desencaixadas em nossos sentimentos e somos feitos de intensidades de contradições que não se resolvem (quem sabe nunca...).
A tensão dos nossos antagonismos por vezes é sufocante, complexa e  precisamos conviver com elas... -percebe isto em você?
 
Então, veja só, quando um dia desapercebidamente,
o outro se vai de nós...
o que fazer com os desmanchamentos de nós mesmos?

 
Um dia eu compus uma poesia quando chegou a hora de um amor terminar: neste link – chama-se“Amor Iluminado.”
 
Mas, o que você, o que cada um de nós faz com os “restos” de um amor que se foi?
Esta questão não é autoajuda, é um aprendizado que é construído na vida, desde quando fomos aprendendo a arranjar soluções-gambiarras na verdade- desde as primeiras castrações que enfrentamos na vida.
 
Entenda sofrimento=enfrentamentos.
 
Rosa com seu fado: Dentro de ti ver o mar-transformou  o que sobrou  do seu “Gabriel” numa partitura, cujas notas perfumavam seus dias com a saudade de dois destinos que um dia se  cruzaram...
... para deixar um pouco de si...
...para levar um pouco do outro...
 
Importante:
... É mergulhando nas entranhas deste mar misterioso do amor que cada um de nós encontra o outro e por detrás do outro, a si mesmo.
Este é o grande segredo.
 
Vou escrever de novo:
... É mergulhando nas entranhas deste mar misterioso do amor que cada um de nós encontra o outro e por detrás do outro, a si mesmo.
 
Quando se apreende esta premissa na vida, as angústias não nos oprimem, pelo contrário, sentir-se angustiado é um passaporte para uma viagem de descoberta sobre -e -de-nós-mesmos.
E não pense que há racionalização capaz de dar conta de estancar...
uma paixão sempre acontece em nossas vidas quando precisamos de movimento. Não escolhemos nossas paixões -acontecem desavisadamente- sem querer mesmo.
... Mas sim- podemos escolher como as vivemos, com a certeza de que precisamos do outro para saber quem somos (dói esta compreensão não é mesmo?).
Precisamos de paixões para nos sentirmos vivos, (que nos cutuquem, que nos acordem...)
não para uma vida... para a existência.
Sabe qual é a diferença entre viver e existir?
 
Viver todos vivem... mas existir de verdade é deixar que  tudo viva em nós...dor...frustrações...medos...inseguranças,
abandono, porque estas são as intensidades do REAL da nossa vida.

 
Outra pontuação:
Sentir...perceber que passamos a existir em outra pessoa como *objeto de amor e de desejo nos enche de entusiasmo e alegria. Concorda?
 
“Só o amor que Gabriel originara nela, um amor escuro, imóvel, feito da matéria da música e das palavras, a empurrara para o interior do seu talento, libertando-a do absurdo da História e da sua contingência (...)”
 
Sim, Rosa, com certeza, voltamos diferentes quando acordamos da febre de uma paixão, é como se a nossa música de fundo –identidária- ganhasse novas notas, nos tornamos mais criativos e inventivos, encontramos soluções onde muitas vezes só enxergávamos problemas. A vida pode ser de novo reinventada. Por isto a escolha é nossa, sempre é.
 
Se o tom que eu continuo a canção da minha vida, quando os versos que eu componho da minha poesia são de finais - e o sentimento for de ódio e  vingança- de nada valeu a experiência.
Mas se “só” sobrar uma poesia ou um fado, já terá valido a pena. Concorda comigo?
 
Para Freud, é pelo viés da sublimação que o desejo descobre meios de se realizar se desviando do alvo sexual. A sublimação acontece quando a pulsão se metaboliza em criação. É uma maneira de nos relacionarmos com o objeto perdido.
 
 “A arte exige corpo e alma, pensamento e emoção, liberdade e obsessão. Exige o dom da metamorfose e um alto grau de domínio perante a dor. O artista, como o amante, tem de ser capaz de sair da sua própria pele para se colocar dentro da pele do outro. Esvaziando-se na entrega, ganha também imunidade à dor -  há sempre um lado que contempla, de fora, a obra que dentro de si se está gerando.”
 
Ao final do livro podemos nos questionar qual é o poema que estamos construindo de nós. Não tenha dúvidas. Cada um de nós tem em si o seu poema, que vai sendo gestado.
Somos prenhes de versos.
E quem sabe possamos fazer como Rosa, transformar em música nossas perdas quando a dor se tornar insuportável... e quem sabe na melodia descobrir a poesia de nossas vidas.
 
Termino esta resenha com um pensamento de um psicanalista francês chamado Alain Didier- veja só que lindo: “A música pode me ensinar que ela escuta em mim um incógnito inaudito e que, ao escutá-lo, ela o faz existir.
 
 Paz para você, sempre!


Neusa Maria 20.03.2014
 
 
 

·         Editei na cor vermelha parágrafos do livro.
·         Objeto é um conceito psicanalítico. É uma representação mental de um objeto externo (pessoas, por exemplo) sobre os quais investimos nossos afetos. 
 
Outras resenhas de livros :
 
Leite Derramado-Chico Buarque

A cabana





 
Neusa Maria
Enviado por Neusa Maria em 20/03/2014
Alterado em 30/01/2016
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