Maria Poesia

Psicanálise e a Poesia na Vida Cotidiana.

A gente inventa a vida para caber dentro dela.

Textos


Jovem e Bela – Filme sobre prostituição. Resenha(análise)psicológica.
 
 
“Se acaso me quiseres.
Sou dessas mulheres que só dizem sim.
Como uma pedra falsa,
um sonho de valsa,
ou um corte de cetim”.
(Música Folhetim –Chico Buarque)
 
 
Tem palavras que tem o poder de despertamento. Carregam em si mesmas, vozes que ecoam nas nossas entranhas.

Prostituta é uma palavra visceral.
Prostituta é uma palavra que desliza nos pensamentos- quer sejamos homens ou mulheres- derramando de sua carne uma fervura que nos respinga gotas de estranhamentos, preconceitos, fantasias, hipocrisia, espanto, mas acima de tudo, faz fervilhar o calor do desejo, a ebulição da volúpia e da lascívia que nos queima por dentro.
 
Não por acaso diz Drummond “-Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra.”



Victor (Fantin Ravat), o irmão de Isabelle (Marine Vacth) -na cena da imagem acima- é quem diz a ela: ”
-Você parece uma prostituta.
É esta mulher-menina – que aos dezessete anos carregava no tom do seu batom, que se transforma no que o irmão profetizou –uma prostituta.
É a protagonista do filme Jovem e Bela.
Isabelle escancara com seu corpo- LINDO,


como se estivesse tatuada em sua pele a palavra- o significante do prazer no imperativo de Lacan: Goza!

 
Sobre o gozo de Isabelle.
 
Gozo para a psicanálise é tudo o que vai para “além do prazer”, já que Freud postula que o ser humano é regido por dois princípios: Princípio do prazer e o Princípio da realidade.
O princípio do prazer nos conduz para a busca do prazer e evitação da dor. O princípio da realidade é a morada do EGO, que faz o contraponto (pelo menos tenta) entre as pulsões do ID e as regras do superego.
Isabelle vivia o ID selvagem, a céu aberto, se permitindo viver o sexo desenfreadamente, não importando com quem, mas queria o dinheiro (apenas para guardar numa bolsa).
Na sessão de terapia ela diz que gostava de organizar sua vida secreta, embrenhar-se nos encontros com os  desconhecidos  e num mundo inusitado.
A prostituição para Isabelle representava a própria liberdade de ser o que ela quisesse, ter o controle sobre si mesma.

 
Quer entender melhor como funciona nosso aparelho psíquico nestas três instâncias?ID, EGO e SUPEREGO?
Leia nesta resenha do
Filme Um método Perigoso.
 
Quem sabe seja importante entender o funcionamento psíquico, para a compreensão deste texto, que esclareço- não vou condenar, legitimar e nem tampouco banalizar a prostituição. Muito menos fazer qualquer julgamento moral desta profissão que –por si só- já é tão estigmatizante.
 
Minhas resenhas sempre tem como pano de fundo o universo reificado da psicanálise -pois acredito ser importante transferir para o universo consensual o conhecimento gestado dentro das academias científicas. Com isto novas representações sociais, no caso desta resenha- por exemplo – sobre a prostituição - podem ser assimiladas pelo senso comum, contestando supostas verdades estabelecidas e dissolvendo ou diminuindo preconceitos e estereótipos pela apropriação científica do conhecimento.
 
A psicologia tem como uma das premissas não entender o sentido da vida, mas compreender qual é o sentido que o sujeito constrói para a sua vida.
Estudar os comportamentos humanos usando da arte da filmografia pode ser um recurso primoroso num momento histórico, em que a problematização da sexualidade está em constante evidência, servindo para ampliar e reinterpretar a prática clínica do profissional psicólogo.
 
Algumas pessoas me pediram a elaboração desta resenha na tratativa de entender qual seria o porquê , o motivo da escolha de Isabelle em ser uma prostituta, já que é uma vida que espelha um mundo tão marginalizado e cheio de perigos e humilhações.

Preste atenção então:

Para a Psicanálise não somos seres de razão. Somos seres de DESEJO, das pulsões e do gozo.
É o gozo uma das molas mestras do mundo – é na verdade o gozo que move o mundo.
Concorda?
Pare e pense um pouco na sua vida. Nos seus relacionamentos, nos seus desejos.Desejos que –ou reprimimos ou os que vivemos(mas que pagamos um preço-sempre).
E mais:
E isto não vale só para a escolha de Isabelle:
Há uma premissa para a Psicanálise Lacaniana:
não há ser humano que permaneça numa situação sem que haja gozo.
 

A Prostituição e a mulher.
 
A prostituição associada às mulheres é a profissão mais antiga da história. Há mais de dois mil anos há relatos sobre mulheres prostitutas, como o caso de Maria Madalena.
O termo Prostituição tem origens do latim Posto, que significa estar às vistas, estar à espera de quem chegar.Ainda na bíblia há o exemplo de Lot que oferece suas filhas virgens aos habitantes de Sodoma em troca de deixarem em paz os estrangeiros que acolheu em casa ou a história atual da garota Bruna Surfistinha

Entre as mulheres referidas acima houve vinte séculos de diferença. Os costumes da sociedade e as características atribuídas a elas foram mudando com o tempo, ora amantes, ora conselheiras, ou ainda pecadoras.
Na sociedade européia do século XII surgiram casamentos devido a interesses políticos e econômicos, sem considerar o sentimento das pessoas, o que contribuiu para o aumento da prostituição, que por sua vez foi regulamentada e protegida pela lei.
É a mulher prostituta, que no decorrer da história sempre foi motivo de filmes, livros e novelas.
Mulher prostituta que é referência de fantasias para outras mulheres no sentido de apimentar os seus relacionamentos sexuais e que tem sua profissão, embora marginal, -regulamentada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, no C.B.O. –BRASIL -2002, como profissional do sexo – código 5198.
 
Ainda lembrando a história, no século XVI, com a reforma religiosa, a prostituição passou a ser clandestina, porém não deixou de existir, permanecendo como uma profissão “pecadora”. Veja só agora: Em determinadas épocas históricas a mulher prostituta teve a função de "proteger" as mulheres consideradas puras. Já pensou a hipocrisia social que aceitamos viver?
 No período medieval, por exemplo, o exercício da prostituição não era proibido, pois havia receio de que as pulsões sexuais masculinas fossem uma ameaça à virtude das mulheres honradas. As prostitutas atuavam na forma de um mal necessário, um objeto de satisfação dos desejos masculinos, que não podiam colocar em risco as mulheres de boa conduta. Para a mulher casada restava apenas exercer seu papel honrado e devoto, devendo exercer a sexualidade ligada à procriação, não recreativa.
 

Não se espante, nem se surpreenda e nem tampouco se escandalize, por favor, mas há com certeza uma “prostituta interior” que mora dentro de cada mulher. É nosso lado obscuro- aquele que relegamos por conta dos grilhões sociais que nos aprisionam.
Numa das últimas cenas a mulher de George (Johan Leysen) diz a Isabelle que por muitas vezes também tinha desejos e pensava em pagar para ter sexo, mas que agora já era muito tarde.

 
Ser uma dama na sala e uma prostituta na cama não é “só” do imaginário masculino como se pensa, mas é uma fantasia feminina muito comum. Difícil mesmo é admití-la não é mesmo?Sabe por quê?
Veja só: há pesquisas apontando que a “mulher da vida” como é chamada, é motivo de inveja de nós-mulheres-, já que a prostituta é aquela mulher que consegue fazer o que nós não conseguimos:
gozar livremente do nosso corpo, com quantos homens for do nosso desejo, sem a necessidade de amar e ser amada. Isabelle exerceu esta liberdade, viveu seus desejos-mas pagou o preço, sem dúvida.
 
Já percebeu como as atrizes glamorizam os papéis de prostituta que interpretam nas novelas?Elas costumam dizer que ganharam o personagem de presente dos autores. De certa forma, essas atrizes legitimam suas fantasias no seu trabalho. Para a psicanálise isto tem um nome:
Sublimação.
É uma das formas que o EGO encontra para satisfazer o ID e o SUPEREGO ao mesmo tempo.
Sendo “uma outra”posso ser então uma prostituta sem que a sociedade me condene.

 
Segundo, a psicanalista Maria Rita Kehl, nas fantasias do prazer genuíno que habita o imaginário das mulheres, há um fascínio pela prostituição, e em muitos casos, são estas fantasias que ajudam a mulher na organização da sua sexualidade.
A autora- em seu livro Deslocamentos do feminino-, relata que a neurose feminina seria uma resposta diante do impasse entre ser a mulher pura que a sociedade elege como padrão ou sentir-se livre para viver sua sexualidade sem compromisso com os padrões morais.

 
Quando George, o cliente preferido de Isabelle


lhe paga mais de 300 euros numa cena, Isabella esboça um sorriso – era raro ela sorrir- como se ela se sentisse valorizada por aquele homem. Afinal não é exatamente o que buscamos nesta vida?Ser importantes, ser valorizados por alguém?

Lembre-se sempre de que cada um de nós busca seu gozo como sabe ou pode. Afinal inventamos uma vida para que possamos caber dentro dela.Isabelle usava e gozava com o seu corpo.
 
A relação sexual não existe (Lacan).
 
Sabe por quê?
O que Lacan quer dizer é que ao procurar o outro (consciente) numa relação de completude (o outro enquanto objeto de gozo, portanto, fálico), quando eu gozo, não gozo com aquele que está ali comigo, e sim com aquele que eu imagino ser o que está ali comigo.(é o que os homens imaginam quando fazem sexo com as prostitutas)
 
Logo, eu gozo é comigo mesmo (a).
Conclusão:
A relação sexual é uma relação de imaginários. E eu não levo o outro para cama. O imaginário em que eu encaixei esse sujeito que está comigo, é que é a bagagem que eu levo para a cama.

Consegui explicar como se dá o encontro de duas faltas?
Um pouco complicada esta história de falta não é?
Vou tentar mais uma vez:
Veja bem: Existem duas buscas.
No nível inconsciente, quero ser o falo e tamponar a falta do outro (dar o que não se tem) e assim, ao tamponar essa falta do outro, sentir-me completo(a).
Mas só que no nível consciente, busca-se justamente o contrário, algo que complete ( a tampa da panela) da minha falta.
De qualquer forma, no final das contas, o resultado vai ser sempre o mesmo: frustração, já que somos  divididos  entre a demanda (querer pré-consciente) e o desejo insatisfeito (inconsciente). Na demanda (do que queremos), o que permanece circulando no vazio, impossível de responder,
é o desejo.
 
Muitas vezes pensamos e chegamos a conclusões lógicas, coerentes, que fazem muito sentido, mas nossas compulsões são irracionais.
Tem algo que não faz o menor sentido, que está além de nós. Aí repetimos nossas “paixões” pensando que “desta vez será diferente”.
Concorda comigo que Freud era humanamente encantador e brilhantemente humano?
Daí que os felizes para sempre existem só nos contos de fadas, daí que as infidelidades não são só físicas, mas são também sentimentais. Não há um objeto capaz de suturar a falta.
Somos seres furados diz Lacan.

Isabelle sabia que a mãe traía o padrasto com o amigo deles.
 
Esta busca pela completude faz com que nossos consultórios e divãs se tornem um lugar-de- busca pela cura no enfrentamento com o REAL da vida, na busca de uma compreensão de que somos muito menos previsível do que imaginamos, e que é justamente a imprevisibilidade o motivo das pulsões e excitações nas relações humanas.
Entre o que idealizamos da nossa vida e o que de fato acontece há uma distância enorme,e é - em como assimilamos esta diferença entre o imaginário e o real, que a nossa vida se organiza, ou com dor e sofrimento ou com sublimações e a experiência do que é
possível viver.
A amiga de Isabelle diz que sua primeira vez foi frustrante porque o namorado ejaculou em menos de 3(três) minutos.
Este é o princípio da realidade.
O homem (real) que acorda do nosso lado tem “bafo”.A mulher (real) com quem o homem dorme “solta gases a noite”(lembra do filme Gênio Indomável quando o terapeuta Sean(Robin Williams) 
fala da realidade da existência humana para seu paciente  Will(Matt Damon).

A mulher prostituta que o homem busca é da ordem do imaginário.
 
Rimbaud e a adolescência.
 

Durante uma aula Isabelle e seus colegas de classe estudam um poema de Rimbaud e quem sabe aí esteja uma pista do que o autor do filme (François Ozon) quis mostrar nas cenas.
Arthur Rimbaud  foi um poeta francês que viveu no século XVIII e que tem na sua biografia a característica de uma vida em busca por sensações guiadas apenas pelo instinto. Se quiser entender um pouco mais sobre ele, assista o filme Eclipse de uma paixão(com Leonardo DiCaprio)
Rimbaud dizia que era muito pouco ser um só, que ele queria ser muitos e viver tudo e todas as intensidades, mas que quando se tem 17 (dezessete anos) não se é sério.
 
E cá entre nós. Nem se pode ser.
Sylvie (Géraldine Pailhas), a mãe de Isabelle admite também ter feito escolhas erradas quando era jovem.

A primeira idéia que nos surge quando pensamos em adolescência é transformação.
Tanto as mudanças corporais- chamada puberdade- que é marcada pelo estirão-e todas as transformações físicas que acompanham as ebulições hormonais levando a explosão da sexualidade, quanto à adoção de novas formas de se vestir, falar e se relacionar.
Esta metaformose é marcada pela tomada de consciência de um novo espaço no mundo, com a experiência de novas realidades, produzindo perda de referenciais.
Lembra da cena na praia quando Isabelle perdeu a virgindade?
Ela se viu fora do corpo como que sendo outra pessoa agora, depois da desastrosa primeira experiência sexual.

É uma fase de turbulências e de contestação que normalmente desestabiliza famílias como erupções vulcânicas que “queimam” expectivas e frustram muitos pais.
 
A(o) jovem que já não é criança, mas também não é adulto vai substituir muitas vezes os pensamentos - por pensar em pensamentos- e (vai ter que) dar conta deles nas variadas relações e interações que vão transitar nas cartografias do seu (novo) cotidiano alterando significativamente a constituição da sua identidade.

Tudo começa com os neurônios. São como tijolos de construção do cérebro e originam todos os nossos pensamentos, e que disparam impulsos elétricos atingindo 400 km por hora. São100 bilhões, gerando muita eletricidade.
Nesta fase o aprendizado é importante. É o cerebelo, que está na base do cérebro que vai armazenando as tarefas e que uma vez aprendidas  assume o controle automaticamente.
A  tarefa mais difícil do cérebro é aprender a conviver na sociedade humana, como lidar com as pessoas.
O cérebro – mais precisamente o hipotálamo – a força orientadora da puberdade, com os hormônios (cada um com sua mensagem) é que mudam a nossa vida para sempre.

No começo da puberdade os hormônios são liberados a noite e ficam agitados. A cada 90 minutos são liberados sua mensagem química. Estrogênios e testosterona são liberados no sangue, são os pesos pesados da puberdade; logo é a biologia que assume o controle.

É quando aprendemos a persuadir, para atrair e para lidar com os motivos dos outros.Isabelle aprendeu a seduzir  no momento em que a maturidade sexual começou, Lembra que ela –depois de ser enganada por um cliente queria o pagamento antes do “serviço”?.

 
É na adolescência que é de fato sedimentada a constituição da subjetividade humana, pois é neste período que o indivíduo desenvolve os pré-requisitos do crescimento fisiológico e os aparatos que vão moldando a maturidade mental e a responsabilidade social, o que resultará na definição do seu jeito de ser nas relações que ele vai construir com o meio, agora tão modificado, já que até então no seu entorno eram mais freqüentes as interações com a família. Não é difícil perceber que, diante desse quadro de instabilidade, a(o) jovem torna-se vulnerável, sem referências para a construção de sua história e de seus projetos.

Neste período a vida fica suspensa num campo indefinido entre o público e o privado, entre a criança e a vida adulta. Erick Erickson, um psiquatra Neo-Freudiano denomina a adolescência como uma moratória social, ou seja, um período de” latência social” , como se fosse uma fase de laboratório experiencial, onde o jovem pode se preparar antes de assumir as responsabilidades da vida adulta. 
 
Ao pensarmos que o próprio eu é construído a partir do olhar do outro, que lhe confere consistência, podemos dimensionar o que representa para a mulher ser reconhecida como desejável por um homem.

Atenção agora:

Isabelle na busca por um significado de vida começa a assumir atitudes ordálicas.
Lembra que ela cobrava, queria o dinheiro, mas que nem usufruía do que ganhava?

É no dinheiro que se concentrava o controle, o poder de ser o objeto da pulsão escópica do outro.
No filme como água para chocolate a personagem numa das cenas diz que sentia na própria carne como era poderoso o
“fogo de um olhar” que segundo ela –de tão intenso poderia acender o próprio sol.
É este olhar que a prostituta busca para si.
É o olhar da pulsão escópica de que Lacan fala.
É um jogo de pulsões .É um jogo de báscula entre o que se realiza e o que se aniquila na satisfação pulsional.

 
Finalizo minha resenha com um recorte de um poema do Drummond com o título “
A Puta”.
 
            Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na rua de Baixo
Onde é proibido passar.
Onde o ar é vidro ardendo
E labaredas torram a língua
Ela arreganha dentes largos
De longe. Na mata do cabelo
Se abre toda, chupante
Boca de mina amanteigada
Quente. A puta quente.


(...)A puta que não sabe
O gosto do desejo do menino
O gosto menino
Que nem o menino
Sabe, e quer saber, querendo a puta”.
 
Paz pra você, sempre!
12.01.2014
Neusa Maria
 

 
Outras resenhas(análises) de filmes: 
 

Perdas e Danos-Resenha (análise) Psicológica. Filme sobre Desejo. (1ª parte) 
 

O Príncipe das Marés- Filme sobre Abuso sexual/estupro-Resenha(análise psicológica)
 

 

 
 
 
 
 
Neusa Maria
Enviado por Neusa Maria em 12/01/2014
Alterado em 30/01/2016
Copyright © 2014. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras
Sonhos, Poesia e Psicologia