Maria Poesia

Psicanálise e a Poesia na Vida Cotidiana.

A gente inventa a vida para caber dentro dela.

Textos


Filme O Príncipe das Marés.



“Não quero que ninguém ignore meus gritos de dor
e quero que eles sejam ouvidos”
.
(
Antonin Artaud)
 
 
Vamos fazer um combinado?
Se você que está lendo meu texto sofreu abuso sexual e ainda hoje traz tatuada em sua carne e na sua alma, as marcas dessa violência, por favor, desarme-se de qualquer preconceito. Pode ter certeza que minhas palavras estarão escritas num manto de muito amor e muito respeito pela sua dor.
Sua reflexão sobre o que estará escrito, será essencial para –quem sabe- um lento e precioso processo de cura possa ser desejado por você.
 
Primeira reflexão: A gente precisa desejar a nossa cura.
Para a psicanálise não é o tempo que cura, mas o entrecruzamento das nossas experiências.
Para Freud “o passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une”ou seja; o tempo existe na transversalização dos discursos do que nós mesmos dizemos do que nos  acontece, somos nós que cimentamos -por meio de nossas emoções(a emoção é a cola da memória),- o significado-o sentido do que nos acontece- é nos  andaimes da palavra(da nossa palavra) que vai sendo construída nossa biografia.
 
Gosto dessa interconexão com recortes de cenas de filmes com a vida vivida por nós. É como se a realidade (a nossa realidade) fosse um espelho do que se retrata na cena.É o real da vida (da nossa vida) que se mostra num recurso imaginário(cinema) , mesmo que sejam lá do nosso arquivo pessoal de lembranças(muitas vezes traumáticas) que pode ser dessa forma, compreendido e (re)significado.

No filme o Príncipe das Marés a realidade da vida é retratada nas cenas de uma maneira tão intensa e tão humana que chega a doer na gente. Como nos dói o REAL da vida não é mesmo? Tom (Bobby Fain) é um homem que usa a ironia, o sarcasmo para encobrir a sua dor. Jung diz que a  ironia é um mecanismo que as pessoas usam para viver na superfície , já que não há lugar para o sarcasmo no fundo das coisas.

 
Explicando: A ironia ou o sarcasmo no caso de Tom funciona como um mecanismo de defesa do Ego. São maneiras inconscientes (inconscientes quer dizer que nem nos damos conta do que fazemos ou de como agimos) que utilizamos para nos protegermos de questões que nos fariam sofrer. Tom  agride para ver até onde pode ir.Se as pessoas próximas se afastam é porque não merecem seu investimento.Suas relações são sempre uma espécie de prova. Tom cresceu em tamanho, mas seu inconsciente permaneceu fixado na infância, para não lidar com situações de estresse ou desgastes afetivos, pois crescer significa enfrentar os “nãos” da vida e dar conta deles. Tom não foi capaz  de  lidar com a dor do estupro, seu ego então – preste atenção-  separou o peso afetivo (dor) do trauma da realidade(estupro), para que ele pudesse continuar a viver.
Entendeu como nos protegemos das dores da vida para nos protegermos?
Todos nós temos os nossos (cada um do seu jeito) mecanismos de defesa.
Como adulto Tom não consegue mais trabalhar nem se relacionar com as pessoas, nem com sua mulher, tampouco com suas três filhas. Vive a beira do abismo, mas não se percebe. 
 
Conhece pessoas que agem assim?Brincam muito, levam tudo na brincadeira, como se a vida fosse uma piada, porque assim não precisam crescer e assumir as responsabilidades da vida adulta.
Pessoas que agem assim não  aprenderam que o desamparo faz parte da vida. Agindo como crianças pensam que podem ter sempre o amparo e a proteção de adultos que o cercam. (afinal todos o acham engraçado).Veja bem, uma das certezas que podemos ter nessa vida é que pessoas vão nos abandonar um dia.
Nossos pais são humanos e nos decepcionam algum dia.
Nossos amigos por algum motivo deixarão um dia de ser.
Nossos sonhos muitas vezes(-quem sabe na maioria das vezes)não se completam e como diz Chico Buarque “ficam extraviados pelo caminho”.
Faz parte do ciclo da vida.
Conquistas trazem junto de si perdas.
Dor e prazer se conectam quando crescemos.
Não evoluímos sem sofrimento.
Não há ganho sem perda.
 
Nesse sentido é salutar a compreensão de que é a linguagem que organiza nossas condutas e Tom parecia sentir prazer em ser insuportável.
Só que debaixo de tanto sarcasmo existia um menininho inseguro e indefeso, que ao ganhar um colo da psiquiatra que cuidava de sua irmã, chora sua dor reprimida durante anos de sua vida.
Que cena mais linda, -é para mim- uma das mais lindas do cinema.
Quando a psiquiatra Susan (Bárbara Streisand) lhe diz:

 “-Tem que ter coragem para deixar a dor sair Tom”.


 
Perceba então que sempre há um hiato entre aquilo que nós contamos para nós mesmos e aquilo que realmente é real.
Muitas vezes nós mentimos para nós mesmos, nos sabotamos para não sofrer.
É nessa distância,é nesse “miolo” que o terapeuta pode ajudar.
Por meio de associações e interpretações, o profissional vai juntando e organizando as reminiscências do passado e junto com o paciente “descascam”as camadas do passado – limpando as máscaras  até chegar ao núcleo da dor.
Compreende como é importante falar a respeito do passado? É como se passássemos a limpo o rascunho de nossas vidas.
 
Importante:
Neste núcleo da dor vai se formando uma ferida como uma escara que a carne vai apodrecendo, tocar nessa ferida pode doer muito, não faça isso sozinha (o), procure alguém que ajude a limpar a pústula, vai verter sangue e pus, vai latejar-e é bom que você tenha alguém por perto para escutar seus gritos, dar um colo e ajudar a soprar o cheiro de morte que exala quando se mexe em carne apodrecida. Mas com o expurgo, a catarse que a palavra vai depurando e nomeando, aos poucos a ferida vai se fechando e fica a cicatriz,apenas a tatuagem que vai fazer parte de sua história de vida.
Numa terapia ao verbalizar os “nossos segredos” eles se tornam conscientes e ao entrar em contato com a dor do que foi vivido nós “obrigamos” nosso Ego a aceitar a realidade e nossa história pode ser compreendida e reintegrada na nossa biografia. Abrem-se os parênteses e os contextos ficam completos dentro do texto das nossas vidas.
 
Atenção:
Se o estupro aconteceu na sua infância, pode ser que sua vida tenha sido construída a partir da lembrança dessa violência vivida. Vamos imaginar, por exemplo, que, desde aquela época o papel que dá sentido à sua vida seja o de vítima: “esquecer” essa lembrança como uma mágica, significaria tirar um dos fundamentos de sua identidade.
O que restará de você sem a recordação traumática?
Como você vai encarar e se permitir ser protagonista da sua existência se –sendo vítima- a culpa não é sua.
Sim, eu sei – é uma angústia fazer este movimento e mudar deste lugar- mas acredite - é necessário.
Sem essa reflexão haverá uma sucessiva perda de paraísos e uma recusa profunda em aceitar que podemos ser expulsos dos “nossos paraísos imaginários” a qualquer momento.
Na maioria das vezes não temos controle das tramas que vão sendo tecidas na urdidura da nossa história.
 
Lembre-se que para a psicanálise um trauma não é uma lembrança que nos faz mal porque é forte demais; ao contrário, nos faz sofrer porque é lembrada de maneira superficial e parcial.
Muitas vezes essa experiência é traumática porque é lembrada “apenas” como uma violência, mas, por exemplo,
 
preste atenção agora-
 
não é lembrado o seu prazer em se sentir objeto da atençãoe do desejo- de um adulto ou até mesmo a descoberta de sensações (suas) que eram - na época-, desconhecidas, mas nem por isto isentas de desejo.
Dói compreender que uma criança pode sentir prazer ao ser tocada, não é mesmo?
Por isto Freud chocou lá no século XIX quando fundou a psicanálise.
Crianças sentem sim prazer quando são tocadas, só que não sabem nomear, não sabem do que se trata.Só mais tarde se dão conta de que o que viveram tinha um nome.
É o não-dito que traumatiza.(é este não-dito que precisa ser dito).É o real indizível que não autentica  apenas as vítimas, mas, sim, todo o entorno , pois todos (se a família souber) passam a ter que conviver e significar o que lhes choca e que não é passível de significação.
Porque abusos sexuais, estupros chocam e reviram nossos instintos.
Só que cada um a sua maneira tem que continuar vivendo.
 
Aceitar o acontecimento não significa de maneira nenhuma justificar a violência do adulto, mas quem sabe o papel de “vítima” possa ser minimizado e você possa rever o sentido de tudo o que aconteceu e tomar o controle de sua vida.
Quem se sente vítima sempre depende das escolhas alheias para (sobre)viver e torna-se  espectador da sua própria vida se deixando  conduzir de qualquer jeito por qualquer um.
Tomar o controle de sua vida em suas mãos significa responsabilizar-se por suas escolhas.
Viver os seus desejos, mas pagar o preço das suas decisões.
 
No filme o Príncipe das Marés, fugitivos de um presídio invadiram a casa em que a família de Tom morava e estupraram Tom, a mãe dele e sua irmã.


Luke (Chris Stacy), o irmão mais velho ao perceber o que acontecia com sua família,  matou os bandidos com uma espingarda. A mãe fez com que os filhos enterrassem os corpos e como num pacto familiar nunca mais falaram no que ocorreu.Como um parênteses , que não era lido, mas que estava escrito no texto da família.
No desenrolar de todo o filme vamos percebendo como cada um deles construiu suas vidas e tentou burlar os efeitos das irradiações que esse trauma abafado foi se presentificando nas suas existências.
 
Só que somos encurralados pelo real da vida, concorda?
Chega um momento em nossas vidas que a contabilidade do destino ajusta suas contas e a angústia se faz presente para desvelar nosso ser. E é justamente essa angústia que nos põe em movimento para que nos conheçamos – de dentro para fora.
Só que é preciso cuidar deste momento, já que o desamparo pode nos paralisar e enfraquecer os nossos recursos psíquicos.
Já se sentiu numa situação de desamparo quando parece que ninguém se importa com a gente?
É bem triste esse sentimento - e é uma situação perigosa, pois ao mesmo tempo em que podemos nos sentir desafiados e lutar, ter objetivos e metas, aprendendo a conviver com incertezas, mas por outro lado podemos também deixar morrer o desejo.  
É o desejo o motor da existência. Quando alguém perde o desejo é a morte em vida.
Foi o que aconteceu com Savannah (Melinda Dillon), a irmã de Tom.
Ela  se torna escritora, mas carregava consigo as cangalhas do sofrimento, é diagnosticada com depressão e  tenta o suicídio.Já o irmão mais velho Luke  se tornou um rebelde e por conta das confusões em que se metia foi assassinado.
 
Para concluir, lembre-se que existe dentro de nós uma canção silenciosa.
O tumulto e os ruídos em que vivemos abafam o som das nossas harmonias interiores.
Só que somos nós que enquadramos nossas realidades nas molduras que nós eliciamos.
Compreendeu que somos nós que decidimos o significado, a intensidade e o valor da violência que sofremos?
 
Somos nós que criamos os ritmos e damos vida à partitura da música de nossas vidas.
 
Coragem!
 
“É preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz a uma estrela dançante.” (Nietzsche)
 
Neusa Maria 
17.12.2013



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Neusa Maria
Enviado por Neusa Maria em 18/12/2013
Alterado em 30/01/2016
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